Tuesday, September 18, 2012

Porto Alegre: Prefeito, pra quê?

Por Adriana Schönhofen Garcia, Eng. Civil, MScEng & MArq





 

 
O Instituto de Arquitetos do Brasil, departamento do Rio Grande do Sul (IAB-RS), sediou na noite desta segunda-feira, dia 17/09, evento questionando os candidatos a prefeito de Porto Alegre com base no documento: 10 pontos por um PROJETO DE CIDADE. Os candidatos lembraram-me alunos que, quando não sabiam a resposta, enrolavam e nada diziam.

Criticas foram apontadas sobre a real participação popular nas decisões da cidade. A atual administração das secretarias municipais é arcaica e caótica. Apenas um dos candidatos apresentou clara proposta de otimizar os processos. Os arquitetos exigiram soluções para problemas endêmicos que há décadas assolam Porto Alegre: planejar a cidade e mantê-la no curso, através de um Instituto de Planejamento gerido exclusivamente por técnicos concursados, sem interferência política. Planejamento urbano em 4 anos, além de impossível, é danoso.

Sorteio definiu as questões a cada um. Sorte não os ajudou, pois a maioria fugiu das perguntas com respostas evasivas, ou genéricas, ou exemplos de áreas de sua maestria, como a educação, mas que não se aplicam ao urbanismo, ou ainda deslizaram para discurso de palanque. Mais graves foram as propostas tecnicamente ineficientes e as mirabolantes.

O candidato a vice da atual administração cometeu a heresia de explicar a contratação do arquiteto de Curitiba à orla do Guaíba, estando dentro da casa dos arquitetos. Um adversário o rebateu: ”E não existem arquitetos em Porto Alegre?” Este último foi ovacionado. Os arquitetos demandam concursos públicos para os projetos das áreas públicas.

O mundo já sabe: prefeitos,  se não forem arquitetos urbanistas, não têm formação para lidar com as questões estratégicas urbanas. Uma cidade é um grande canteiro de obras que está em constante transformação para fornecer suporte a todas as outras atividades. A menos que adotemos sistemas de gestão existentes nos EUA e na Europa, onde um técnico administra a cidade, por anos a décadas, e não um político, sem formação e de curta duração no poder, dificilmente ocorrerão melhorias significativas e consistentes nas cidades brasileiras. Fica a pergunta: Prefeito, pra quê?






 

 

Thursday, March 29, 2012

PORTO ALEGRE: EU QUERO MULTAR

Por Adriana Schönhofen Garcia, Eng. Civil, MScEng & MArch



EU QUERO MULTAR. Como educadora, quero multar. Como cidadã, quero multar. E não estou sozinha nisso, os que cumprem a lei estão sendo esmagados pelos que não cumprem. É frustrante não poder fazer nada. O trânsito de Porto Alegre precisa urgentemente da participação da comunidade para ser APAZIGUADO, na base da multa e da educação. Solicito à Prefeitura que crie o posto de POLICIAL COMUNITÁRIO.





O trânsito em Porto Alegre lembra o velho oeste, uma cidade sem lei. Ou melhor, com lei sem cumprimento. A fiscalização é insuficiente e infrigir as leis é atitude escancarada e corriqueira.  E, pasmem, o que é errado passa a ser aceito e adquire leis próprias: como os motoqueiros buzinando quando você muda de faixa por cruzar a área em que trafegam, entre os veículos. Ou quando buzinam atrás de você por parar num sinal de “Pare”.

Observo uma média de 5 infrações de trânsito em trecho de 15 minutos. Se consideradas as motocicletas, as infrações saltam para 15. Adicionando as infrações dos pedestres são mais umas 5. Portanto, quase 2 infrações por minuto! Um absurdo! Aí está a simples prova da falência do sistema atual de fiscalização do trânsito em Porto Alegre.


Em Porto Alegre, se não tem ninguém olhando para multar, as infrações ocorrem aos borbulhões. Os condutores são egocêntricos, só pensam no seu bem estar imediato e não no bem comum. Quando chamamos a atenção deles, suas atitudes são de crianças mimadas: ficam furiosos, esperneiam e esbravejam mesmo estando errados. Espanta-me que as pessoas dentro de um automóvel são as mesmas dentro de um supermercado, de um cinema, de um shopping. Por que viram bestas ao dirigir?

Em Miami, que não é cidade modelo, as infrações observadas são numa média de 1 por semana e olhe lá... O stress ao dirigir é mínimo. E as infrações são “decentes”, como excesso de velocidade na freeway, e não o ultraje de alguém te forçar marcha ré porque ele é que está na contramão numa rua de mão única!

Em Miami, não é necessário você ficar cuidando se cada carro ou moto irá passar por cima de você. Trafegar na contramão é uma das infrações mais frequentes no meu trajeto. Infração gravíssima, 7 pontos! Eu transporto criança. Eu quero ver esses indivíduos sem carteira, expurgados da via pública.
   


Espaço público caótico

O stress no trânsito de Porto Alegre não tem nenhuma necessidade de ser o que é. Os problemas básicos são:

- Pessoas mal-educadas, ignorantes, egocêntricas, rudes e irresponsáveis. Infratores crônicos que não se importam com nada e com ninguém, só consigo mesmos.

- Fiscalização do trânsito insuficiente. É necessário multa e mais multa e mais multa. De nada adianta um código de trânsito rígido e uma fiscalização branda a inexistente.

- Vias degradadas e obsoletas: buracos, depressões, falta de sinalização, sinalização apagada, pinturas na pista inexistentes, design de vias ultrapassados, trajetos ilógicos, pistas que começam e terminam sem aviso prévio, que estreitam e se alargam, remendos de asfalto nos paralelepípedos, ônibus em vias estreitas demais que não os comportam, excesso de vias de mão-única, excesso de estacionamento permitido, calçadas em estado de calamidade pública, sinaleiras e placas imundas, etc, etc, etc.

- Excesso de veículos e motos, resultado de transporte público deficiente e falta de infraestrutura alternativa que possibilite outros meios de locomoção (como metrô, bicicletas, patins, etc).


Os problemas são tantos, que o espaço público viário/pedestres em Porto Alegre se assemelha a um ninho de ratos. Isso é o resultado de falta de planejamento e ação continuada ao longo dos anos; falta de padronização; falta de sistema de manutenção preventiva associado a sistemas de qualidade, e de, obviamente, fiscalização efetiva.

Num espaço público caótico, onde todos competem pelo mesmo lugar (carros, carroças, caminhões, mulas humanas (catadores de lixo), ônibus fora do corredor, táxis, lotações, motocicletas, pedestres correndo no meio-fio, bicicletas e até skaters no contrafluxo) as condições primitivas impõem uma necessidade de sobrevivência a qualquer custo: é o ”Salvem-se quem puder!”

Os próprios serviços da Prefeitura adicionam ao stress. Exemplo: conserto de avenida deve ser feito de madrugada e não de dia: caminhão tapa-buracos gera um tranqueira imensa às onze da manhã. Não pode ser assim!


Fig. 1: Conserto ou remendo?: Os paralelepipedos desnivelados (à esquerda da foto) são marca registrada da capital gaúcha nas ruas de TODOS os bairros. Você dirige como se estivesse dentro de um liquidificador. Os remendos de asfalto estão por todas as partes. Neste trecho são três remendos diferentes. A definição dos trajetos de ônibus não leva em consideração se a pavimentação das vias é adequada para suportar o excesso de carga. Resultado: destruição do calçamento e o “conserto” ultrajante do remendo. Este status quo não pode durar por toda a eternidade. Vias como esta precisam ser REFEITAS, do zero, uma a uma, custe o que custar, com pavimentação adequada que requeira mínima manutenção por várias décadas. Porto Alegre, RS, Brasil.


Motocicletas

Se a morte não lhes importa, a mim importa. No decorrer de três meses presenciei três motoqueiros estirados na pista. Fiquei chocada. 99% das motocicletas trafegam entre os veículos e ainda buzinam para você sair fora do caminho delas quando você muda de faixa. O código de trânsito deve acomodar essa situação como infração. Em 2011 o número de mortes no trânsito aumentou em Porto Alegre, principalmente devido a acidentes com motos.¹

As motocicletas devem ocupar o espaço de um veículo e não trafegar no meio destes, costurando-os por todos os lados. Elas devem esperar no engarrafamento como os demais veículos. As vias não foram projetadas para acomodar essa terceira pista imaginária em que a motocicleta está transitando. Não há a mínima condição de segurança. Esta pista não existe e permitir essa situação é uso enjambrado da via e, portanto, irresponsabilidade do poder público.


Fig. 2: Pista inexistente: As vias são projetadas para dois veículos lado a lado e não três. Na figura acima a motocicleta não consegue passar e para. Em amarelo, pista projetada e, em vermelho, pista imaginária aproximada para circulação segura da motocicleta. O Código Nacional de Trânsito não deve permitir o trânsito de motocicletas sobre a linha tracejada além das necessidades normais de ultrapassagem e mudança de pista.


Estamos infestados de motocicletas que praticam a cada segundo manobras arriscadas em vias em péssimas condições. E as que ultrapassam junto ao meio-fio, pela direita? Eu nunca vi nada similar nos Estados Unidos em uma década e meia.


Fig.3: Motocicletas pela direita junto ao meio-fio: Infração corriqueira em Porto Alegre, RS, Brasil.

Porto Alegre está virando um Vietnã ou uma China? É esse o planejamento estratégico da Prefeitura para a cidade? Ou a inexistência de um?

Fig. 4: Caos: Motocicletas e veículos se amontoam sem condições de segurança. Porto Alegre, RS, Brasil.


Pedestres
Os próprios pedestres infringem o código de trânsito (e existe provisão na lei para multá-los). Mães com carrinhos de bebê ou crianças pela mão cruzam avenidas fora da faixa de segurança, estando a 10 metros dessa. A terceira idade faz a mesma coisa! Pedestres atravessam nas pontas extremas das paradas de ônibus do corredor. Absurdo em cima de absurdo.



O que fazer

EU QUERO MULTAR. Como educadora, quero multar. Como cidadã, quero multar. E não estou sozinha nisso, os que cumprem a lei estão sendo esmagados pelos que não cumprem. É frustrante não poder fazer nada. Essa vontade tem que ser transformada em energia produtiva. O trânsito de Porto Alegre precisa urgente da participação da comunidade para ser APAZIGUADO, na base da multa e da educação. Solicito à Prefeitura que crie o posto de POLICIAL COMUNITÁRIO.

O Policial Comunitário tem a condição única de conhecer sua comunidade e os pontos em que as infrações ocorrem com maior frequência. Com o tempo também reconhecerão que os infratores são os mesmos. Depois de uma ou duas multas seguidas esses motoristas cumprirão as leis, pois terão o conhecimento que se encontram no trajeto diário de um policial.

Por exemplo, a maioria dos infratores que dirigirem na contramão são os próprios moradores de ruas de mão-única. Observo os mesmos veículos, cometendo a mesma infração, no começo e fim do dia. Uma absoluta falta de ética e respeito pelo bem comum para encurtar tempo e combustível.





Fig.5: Infrator crônico: Motorista da Kombi pára embaixo de sinaleira, em cima da faixa de segurança, em local proibido parar e estacionar. Ele comete a mesma infração várias vezes na semana, no mesmo local, no mesmo horário, engarrafando a via. Embarca jovem com deficiência de locomoção. Cerca de 40 m da sinaleira há uma rua secundária onde ele deveria estacionar e aguardar o seu passageiro. Entretanto, ele acredita que o seu problema pessoal justifica a infração e descaso com os demais. Porto Alegre, RS, Brasil. 

 
Os Policiais Comunitários serão voluntários, pessoas da comunidade, sem antecedentes criminais, sem infração de trânsito em um ano, legalmente cadastrados, treinados em legislação e em como lidar com infratores. Basicamente, serão os agentes pacíficos, os peace keepers. Levarão indentificação pessoal com brazão e documento. Utilizarão seus próprios veículos, porém devidamente identificados, radar, leitor automático de placas, megafone, lampada externa e luz azul interna piscante (de uso exclusivo) para notificar os infratores.

A EPTC não tem condições de estar em todos os lugares  ao mesmo tempo. Se tivermos 5000 voluntários (e estou projetando por baixo), serão centenas de milhares de multas a mais diárias. A coisa vai se ajeitar, pode ter certeza. E os recursos destas multas deverão ser investidos em reconstrução da infraestrutura viária. Conversei com vários taxistas e eles ficaram entusiasmadíssimos com a idéia, seriam os primeiros a se registrar como policial comunitário.

Esse é apenas um dos componentes para melhoria do trânsito. Há outros componentes que devem ser atacados.

Ps: Escrevi este artigo antes da reportagem de hoje (28/03/2012) de capa de ZH. A noticia é boa, mas há muito mais a fazer:



¹ Gonzatto, Marcelo. “Infrator Acuado, EPTC aperta o cerco e multa 40% a mais.” Zero Hora 28 Março 2012, 2ª ed, 26.

Monday, March 12, 2012

Outdoors: panfletagem tamanho gigante

Não quero, não me interessa, não necessito… Todo e qualquer outodoor só me causa stress, me impede de ver os prédios, as cúpulas das igrejas, as copas das árvores, as flores, os campos, as montanhas, as lagoas, o céu, as nuvens, etc... tudo o que vale a pena ser visto.

Tanto em Porto Alegre, como na estrada, o outdoor é uma pedra no meu caminho. Vide Estrada do Mar, que deveria ser chamada, na ida, de Estrada do Outdoor, ou Estrada da Poluição Visual, ou ainda Estrada do Stress. Na volta da praia a gente sente o alívio... pois a maioria dos outdoors está virada para o sentido oposto.

Devo ser um ponto fora  da curva normal estatística, mas nunca, nem uma única vez, nenhum anúncio de outdoor se concretizou na compra do serviço ou produto que anunciava. Quando quero algo, vou buscá-lo por mim, na mídia que me apraz, no momento que me convém. Essa propaganda me é imposta, é compulsória; não me perguntaram se eu a quero, se eu pretendo dar-lhe segundos do meu tempo para mirá-la. Criatividade é vender sem jogar nos meus olhos o que não procuro.

E não, não me fazem rir... não, não são criativos... não, não são bonitos.... Ninguém vai a lugar nenhum para ver outdoor.

Há muito ganho monetário em cima da perda da cidade e da população: perda da qualidade de vida. O ganho de alguns não pode ser fruto da perda para milhões.

Quero paz na paisagem, quero ver a cidade, quero ver a natureza. Que todos os outdoors irregulares de Porto Alegre sejam removidos, sem exceção, e não sejam aprovados. Não necessitamos de panfletagem tamanho gigante. Se eu precisar de algo, vou no Google.

Tuesday, January 11, 2011

Como se faz uma análise crítica de um projeto arquitetônico?

(publicado originalmente em outubro de 2010 no blog do Porto Imagem)
Você saberá avaliar as propostas para o Cais Mauá? Saberá dar uma opinião além do gosto ou não gosto e por quê? Como que críticos de design arquitetônico avaliam um projeto?

Usando a proposta apresentada em julho como exemplo e imaginando-a como um projeto final de uma cadeira de estúdio de arquitetura, o que os críticos diriam? É sabido que uma proposta preliminar não fornece todas as informações necessárias à construção, assim como nem todas as idéias são reveladas… Portanto, ela é um ótimo exemplo para discussão do que é realmente necessário a uma proposta completa.

Precedents (Estudos de Caso)

A primeira questão a se fazer aos competidores: quais são os precedents?

Precedents são as estruturas pesquisadas, as referências, podendo ser ou não funcionalmente semelhantes. Tipo: para um museu, estudam-se outros museus. Entretanto, qualquer característica num projeto anterior pode ser estudada. A influência dos estudos de caso no projeto é benéfica; a cópia, total ou parcial, seria um desastre criativo.

Na proposta apresentada em julho, o material publicado na imprensa não faz nenhuma referência sobre a que estudos de caso o projeto se embasa. Dificilmente foi criado do nada e o crítico perguntaria ao aluno: “Onde está a pesquisa feita?” E mais: “Por que esses precedents foram escolhidos? O que justifica sua escolha e qual a relação com o projeto do Cais Mauá?”

Diagramas

Toda a proposta deve apresentar diagramas de análise: movimento solar, acesso de pedestres e veículos, direção de ventos, distância de outros pontos de atração, tipo de edificações próximas ao terreno, alturas, etc. Uma proposta que não mostra diagramas é como mostrar uma casa sem fundações. Não tem base. O projeto já começou apresentando-se com pé esquerdo.

Design Concept

Segue então a pergunta fundamental “Qual é o design concept” da proposta? Design concept, o conceito de design, significa, de uma maneira bastante simples, a idéia por trás das decisões arquitetônicas, urbanísticas, paisagísticas e técnicas tomadas. Ele liga às partes ao todo, do detalhe ao geral.

Sketches

Próxima pergunta: onde estão os desenhos a mão que expliquem a evolução da idéia? Como saiu do ponto A e chegou ao B? Como nasceu a idéia e como ela foi desenvolvida com base no design concept? Sketches a mão não saem de moda. Os sketches de Zaha Hadid são publicados e estudados, mesmo que ela use vinte telas de computador ao mesmo tempo para gerar o projeto final. As idéias dela nascem a mão em 2D (duas dimensões). Frank Gehry, da mesma maneira, presa sua quase ignorância em lidar com computadores. Suas idéias desenvolvem-se na exploração de modelos reais em 3D (três dimensões). Ele explora forma como um escultor.

Avaliando um projeto arquitetônico

A avaliação de um projeto arquitetônico não é subjetiva. Todas as decisões de forma, de espaço, de especificação de materiais, de movimento, etc, estarão justificadas no conceito de design. Nada é aleatório e tudo tem que ser pensado. O Arquiteto Bernard Tschumi enfatiza bastante essa idéia, de que “o projeto arquitetônico é a materialização do conceito”. Um design será “bom” tanto quanto melhor refletir o conceito. É assim que os alunos da arquitetura em escolas que seguem essa linha de pensamento são avaliados.

Por exemplo, o Centre Pompidou em Paris, podemos dizer que o design concept é “infra-estrutura”. Todos os sistemas infraestruturais estão expostos e exagerados. Um leigo em arquitetura pode perceber isso. O conceito é claro e a abstração do conceito foi desenvolvida com maestria.

No caso da proposta apresentada em julho não há conceito. Este nem foi nem mencionado na imprensa. A falta de um conceito levanta questões…

A vista aérea do Cais Mauá apresentada em julho, olhando para o nordeste, por exemplo, o que justifica as entradas dos píeres na frente do pavilhões? Qual a justificativa que um píer seja daquele jeito e não de outro? É muito simples desenhar linhas, para dentro e para fora, aleatoriamente. Qual é o design concept?

A falta de conceito também se reflete na fragmentação das zonas, que não dialogam entre si. As torres são um mundo, o cais é outro e o prédio de escritórios e shopping é outro. É como uma colcha retalhos que não apresenta um elemento unificador. Paisagismo por paisagismo não é suficiente. Falta a base do todo, neste caso, um master plan, que também reflita o conceito.

A organização do Cais, o que em arquitetura chamamos de parti, é linear. Exemplos bem sucedidos lineares podem servir como referência. Vejam por exemplo o projeto do High Line em New York. Os espaços criados são diferentes, mas existe um conceito de design muito claro, inteligível por qualquer pessoa, que faz referência às linhas de trem que ali existiam.

Importância histórica e atual

Projetos bem sucedidos começam e continuam com o constante engajamento e a educação da comunidade sobre a importância hitórica e atual de seus rios e lagos. Educação para crianças e adultos, palestras, atividades comunitárias de limpeza da orla, atividade esportivas, como competições aquáticas e outras são essenciais para o sucesso da integração e manutenção do Lago Guaíba pela comunidade.

A contribuição histórica e atual de suas águas também deve ser considerada. Navios enferrujando podem virar museus como acontece em São Francisco. Réplicas de antigas navegações podem ser construídas ou buscadas mundo a fora para contar a história da formação de Porto Alegre. Parques de demonstração de captação de água e de tratamento de esgoto, educam quanto ao respeito ao Lago. De onde vem e para onde vai a água de Porto Alegre?

Qualquer projeto que não considere essa componente social e histórica, propondo espaços que proporcionem o engajamento do Lago Guaíba com a comunidade, estará deficiente.

Integração e acesso.

Volta a pergunta: Onde estão os gráficos de análise de acesso? Onde estão os diagramas de movimento de carros, ônibus, pedestres e bicicleta? Isso faz parte de qualquer proposta. Apenas após essa análise, o acesso de pedestre ao Cais poderá ser definido. Os diagramas são fundamentais para que se avalie se as decisões de acesso estão bem embasadas.

A proposta de julho previa nove passarelas sobre a Mauá. Estas podem até ser justificadas onde existe a linha de Trensurb, mas ali está sendo previsto um tunel. E no resto? Segue a questão: por quê? Se o objetivo é integrar o Lago Guaíba e o Cais à população, ou o centro ao Lago, passarelas, além de serem caras, não são a melhor alternativa como elementos de integração de um lado a outro da rua.

O pedestre segue a lei do menor esforço. Mesmo que haja um elevador, passarelas não são convidativas a explorar o que existe do outro lado da rua. A melhor solução arquitetônica advém da identificação do problema e proposição de soluções. O problema está que a Avenida Mauá em si é uma barreira física ao livre acesso ao Lago, como um muro horizontal. (fora o Muro da Mauá, que mencionaremos depois) Construir passarelas é somente reinforcar a situação existente.

Os mais famosos boulevards do mundo são convidativos à circulação de pedestres, atividades sociais e comerciais, como cafés, bares, artistas de rua, etc. Isso ocorre porque as ruas são atravessadas no nível do solo. Uma proposta de passarelas sobre a Avenue des Champs-Élysées seria considerada lunática.

O fato é que a integração harmônica entre veículos motorizados e pedestres é possível se a velocidade máxima permitida for baixa. Se o trânsito for intenso, existem alternativas de solução, como por exemplo, desviar o fluxo para outras ruas, submergí-lo, elevar o acesso inteiro para o outro lado da rua, etc. Cabe ao estudo do entorno definir a melhor alternativa. Se alternativas deste tipo forem consideradas, a Avenida Mauá irá se transformar de patinho feio a cisne num piscar de olhos.

Ainda quanto ao acesso, não basta desenvolver a orla, é preciso desenvolver também o entorno. A proposta de julho esqueceu de olhar para o outro lado rua. Uma parte fundamental do sucesso de uma orla está na revitalização do acesso, das ruas e boulevards que desembocam no Lago Guaíba. Isso não foi considerado de maneira abrangente na proposta preliminar, apenas junto ao Gasômetro, como se o Cais fosse uma peça solta num tabuleiro.

Dito isso, no mínimo dois blocos para dentro do centro devem também sofrer intervenções de melhoria urbanística, como calçadas, sinalização, paisagismo, etc. Devido às proporções do projeto, estamos falando de um desenvolvimento de um district e não uma quadra. Todo o entorno deve ser integrado, da Mauá à Rua Sete de Setembro. Vejam por exemplo o Design District in Miami com várias quadras revitalizadas.

Construção de garagens no centro é marcha ré nas tendências urbanísticas atuais. Hoje o carro se proliferou, todo mundo quer ir para o shopping de carro, chega lá e não tem estacionamento. Essa e’ uma necessidade sem fim. Quanto mais garagens se constrói, mais carros se atrai. Vejam por exemplo software de simulação de cidades virtuais dos cursos de transportes da Escola Engenharia da UFRGS. A cada rodada de dez anos que eu fazia, construir garagens só aumentava os problemas. Exemplos por todo o mundo buscam reduzir o uso de transporte privado aos centros urbanos. Porto Alegre já possui um sistema bastante eficiente de transporte púplico para o centro.

Torres na orla

Alguém concordaria construir um prédio de escritórios na areia de Copacabana, do lado do mar, na Avenida Atlântica? Isso seria considerado um absurdo. O dito prédio imaginário deve ser construído do outro lado da Avenida. E por quê a mesma consciência não se aplica a orla fluvial? Qualquer construção que não vise o uso público ou não tenha a necessidade de estar na beira da água deve ser construída do outro lado da Avenida Mauá. Prédios atualmente existentes na Mauá, sem importância histórica, podem ser demolidos e ali construídos os tão desejados hotéis, escritórios e shopping centers. Por quê no Rio de Janeiro as pessoas achariam isso sensato e em Porto Alegre não?

Miami tem um rio, o Miami River, que sofre o mesmo desleixo que o Lago Guaíba. Poucos meses atrás, num relatório de 50 páginas do AIA (American Institute of Architecture), numa consultoria relâmpago de três dias, montada por nove especialistas em diferentes disciplinas, uma frase ficou bastante clara: usos privados não relacionados com água e não dependentes de água não deveriam ser construídos na beira do Miami River.

Alguém já pensou que poderíamos ter uma praia de Lago perto do Gasômetro? Para a arquitetura e engenharia de hoje, praticamente nada é impossivel. Em vez de Porto Alegre virar cidade fantasma no verão, ela mesmo receberia turistas. E mais importante, não precisaríamos esperar o fim-de-semana, apenas o fim do expediente, para ir à praia. O Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFGRS tem capacidade de analisar modelos reais e testar alternativas, em escala reduzida, do comportamento da orla, quanto aos movimentos das águas e de solo.

Muro e paisagismo

Enchentes são eventos recorrentes, às vezes de ciclos longos, como cem anos ou mais. O muro da Mauá é parte de um sistema de proteção às enchentes. Não entrarei no mérito se é necessário ou não. Se ele é mantido, cabe à arquitetura incorporá-lo e estabelecer integração com a cidade com soluções criativas, como mencionei anteriormente para a Avenida Mauá. Se é removido, cabe também à arquitetura adaptar a região às enchentes. Como assim?

Um exemplo simples de integração água/edificação são as casas de palafitas ao longo do Rio Amazonas. É a arquitetura respondendo a uma necessidade habitacional, mas convivendo harmoniosamente com a natureza.

Em centros urbanos, como Galveston, no Texas, há uma parede de proteção no centro da cidade. O furacão de 1900, que matou milhares de pessoas, o mais mortal de todos os furacões já ocorridos nos Estados Unidos, levou à construção da Seawall, com mais de uma dezena de kilômetros de extensão e a elevação do nível do solo da cidade. Desta maneira, a vista para o mar não foi bloqueada e o acesso à praia se dá ao nível do solo, descendo-se por escadarias e rampas ao nível do mar.

A questão é: Construir uma muralha da China que isole a cidade do mar, que talvez nem seja uma proteção 100% eficaz a um furacão categoria 5 ou adotar uma solucao intermediária, adaptando-se às edificações suscetíveis a enchentes, mantendo-se a qualidade de vida resultante do convívio com a orla?

Galveston optou por essa última. Elevou-se o nível do solo até a altura da Seawall e adaptou-se o código de construção, limitando o uso do primeiro andar. As “palafitas”não são visíveis na maioria dos novos projetos porque podem ser enclausuradas, mas há restrições do uso junto ao solo: quartos, salas, cozinhas, etc são proibidos. Em toda a cidade, dentro e fora do perímetro urbano, existe essa “aceitação” construtiva de que uma enchente pode e, provavelmente, ocorrerá novamente. A indústria de seguro complementa as soluções arquitetônicas: propriedades mais sujeitas a enchentes pagam seguros mais altos.

Mas voltando ao nosso muro e a proposta apresentada em julho… O talude proposto não é design e não faz parte de um design concept…. Nesse “pequeno” detalhe, novamente, não há solução arquitetônica e nem de paisagismo. A proposta em questão simplesmente aplica práticas corriqueiras.

O talude também não é sustentável. Grama é verde, mas não é green. Grama que necessita de corte consome energia e polue (máquinas que cortam grama são elétricas ou usam combustível). Reduzir manuteção é reduzir recursos e, conseqüentemente, custos. Grama que não for nativa precisa ser molhada, consome água e portanto não é sustentável. O paisagismo contemporâneo sustentável busca o uso zero de água. A solução é a especificação de plantas nativas, que se mantém sozinhas. Vejam o exemplo do South Pointe Park in Miami Beach.

Uma prosposta que não fizer considerações inovadoras para o paisagismo estará deficiente. O paisagismo não pode ser uma consequência das edificações. Ele deve ser concebido como parte do design concept; deve ser pensado conjuntamente com as estruturas e é tão importante quanto elas.

Design da torre do hotel

Torre de vidro é uma idéia velha. Mies van der Rohe choquou quando propôs sua torre de vidro para a Friedrichstrasse, em Berlim, em 1919. Qualquer estudante do primeiro ano de arquitetura propõe torres de vidro como a da proposta. Não há inovação nenhuma. A torre de Mies era muito superior e isso foi há mais de noventa anos atrás.

Só para citar um exemplo, vejam os projetos de prédios do Arquiteto Ken Yeang. Não dá nem para comparar… A complexidade de soluções arquitetônicas e de meio ambiente que ele busca em cada projeto leva em consideração o sol, o vento, o meio ambiente, o bem estar dos ocupantes, o entorno, os materiais, a conservação de energia, etc e etc.

Se querem fazer um prédio de vidro, então que seja, ao menos, criativo como a Prada Store em Tokyo dos Arquitetos Herzog e de Meuron. Caso contrário, vira simplesmente uma casca transparente que sobrevive a ar condicionado.

Transporte fluvial

E o transporte fluvial? A proposta delinea as alternativas? Mostra diagramas de possíveis roteiros? Propõe número adequado de píeres a diversos tipos e tamanhos de embarcações? Não.

Se não existem empresas interessadas em assumir o transporte fluvial, faz-se um estudo de mercado, identifica-se a demanda potencial e busca-se empresas potenciais no mundo inteiro. Se o novo serviço é eficiente, a demanda surge. Conectar a zona sul da cidade com o centro por água não é sonho. A cidade de Seattle é um exemplo que pode servir de refêrencia.

Se as empresas de ônibus definissem o seu negócio como provedoras de serviços de transportes e não como provedoras de transporte rodoviário exclusivamente, elas poderiam criar divisões de transporte fluvial e, deste modo, melhor atenderem à comunidade. Quando pensamos em veículos anfíbios que andam na água e no solo, a linha divisória, do que é onibus e do que é barco, desaparece.

Uma proposta de design abrangente deve programar a inclusão do desenvolvimento fluvial para todos os trajetos que poderiam ser desafogados e/ou reduzidos os tempos de percurso, incluindo também a conexão com Guaíba e Barra do Ribeiro.

Apresentação

Depois de se analisar o conteúdo, se analisa a apresentação.

Como mencionado, a apresentação da proposta preliminar está incompleta, pois os diagramas de análise não foram fornecidos. As perspectivas, aqui chamados renderings, também estão incompletas em conteúdo e em número. Maior informação sobre as soluções deve ser fornecidas na proposta final. A arquitetura fala por imagens.

Por exemplo, como as passarelas seriam vistas no contexto da Avenida Mauá? Falar sobre elas não basta, a imagem gráfica deve ser fornecida. Vistas aéreas são necessárias, mas precisam ser complementadas com imagens em como o espaço é percebido pelos ocupantes, na altura dos olhos do observador. Também a vista que mostra a parte do corredor dos pavilhões está deficiente de contexto. Como o corredor se relaciona com Lago? Isso deve ser melhor ilustrado. E a praça principal do Cais? Menciona-se, mas não se mostra.

Também alerto que imagens manipulam; mostram o que querem mostrar. Tudo tem que estar muito claro e não só na planta baixa, mas nas perspectivas também. O uso de colagens de pessoas bonitas e cool pode ser usado como elemento de distração. Servem para dar uma idéia do “clima”, da mood, do ambiente, mas, como os críticos fazem, devem ser imediatamente desconsideradas num segundo momento e a atenção voltada ao que realmente está sendo proposto. Se algum ponto não está claro, certamente, está faltando uma imagem para esclarecê-lo.

A menos convincente das perspectivas da proposta é a vista aérea para o nordeste do Cais. Nesta imagem houve somente um copiar e colar de símbolos de pessoas. Ok, mas o que elas estão fazendo ali? Os fantasminhas brancos não convencem como pessoas alegres e felizes engajadas com o Lago. Qual a atividade? Estão caminhando a esmo sobre um pavimento fervente no verão e totalmente desprotegido no inverno? Se a proposta fala em transporte náutico, onde estão os navios? Onde estão os guichês de embarque? Onde estão os bancos? Onde estão as proteções para sol? Como será a ilunimação? Não tem paisagismo nenhum? A imagem não fornece informação de como o espaço será ocupado e como será o engajamenteo das pessoas com o Lago Guaíba. Ela apenas mostra um pavimento que entra e sai da orla.

Comentário final

A proposta inicial, como coloquei anteriormente em outro artigo, não ousa, não questiona, não é abrangente, não oferece soluções adequadas ao contexto e nem é sustentável. É uma proposta que olha para o trás, para o passado, e não para frente, para o futuro.

A manifestação da população, do Instituto dos Arquitetos do Brasil, do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura, das faculdades de arquitetura e engenharia, dos profissionais de Porto Alegre e região é fundamental neste momento da abertura das propostas à concorrência do Cais Mauá. A discussão e seleção do melhor projeto deve ser embasada em conhecimento real. A responsabilidade de uma cidade melhor não está somente nas mãos da equipe oficial de seleção, mas nas mãos de cada um que se importe com Porto Alegre.

Thursday, August 12, 2010

A licitação do Cais Mauá e pontos preocupantes

É motivo de preocupação a maneira como a licitação do Cais Mauá está sendo apresentada e divulgada; como está sendo conduzida e, principalmente, como está redigida.

Para o choque geral da nação de profissionais interessada no assunto, o documento da licitação disponível para download no website do governo está incompleto. Faltam anexos ao qual se refere o texto no corpo do documento. Como que isso ocorre? Como empresas vão participar se toda a informação não está disponível? Se não é suspeito, é, no mínimo, relapso. O estudo feito pelo governo também não está incluído. Onde está? Por quê não está lá, tudo junto? Mandei essa pergunta aos órgãos competentes. Não houve resposta. A função dos órgãos públicos é facilitar o acesso à informação e não forçar os participantes a percorrerem num labirinto de emails e pesquisas de google.

Mesmo sabendo português, achar o texto no site é uma manobra de clicks. Uma competição dessa importância deveria ter um website próprio, ou, no mínimo, um ícone na primeira página dos sites dos órgãos envolvidos que levasse diretamente a todos os documentos, incluindo as leis.

Vem a questão da divulgação: algo que é difícil de achar, não está sendo devidamente divulgado. Tanto que empresas em outros Estados nem sabiam da existência da licitação. O que dizer então da divulgação internacional? A declaração do governo em entrevistas na imprensa, que a competição atingirá os quatro cantos do planeta, não é suportada tecnicamente.

Segue outra preocupação: a maneira como está sendo conduzida. Fiz uma pergunta simples: “Em se tratando de uma licitação internacional, onde está a versão oficial em inglês?” Levaram dois dias para responder que não tinham resposta. E iam ver… Até hoje, nada.

Primeiro, o governo precisa entender que nos negócios internacionais o tempo máximo de resposta a emails é 24 horas e, preferencialmente, a metade disso. O serviço está ineficiente, especialmente num prazo de competição tão curto.

Segundo, a língua é uma barreira de entrada. Competição que se diga internacional deve estar totalmente divulgada em, no mínimo, duas línguas: a nativa do país e em inglês. O próprio site do CECOM para o download não tem tradução em inglês. Como que empresas dos quarto cantos do planeta vão descobrir e ler sobre a licitação? Se não suspeito, é inexperiente. Ou talvez a definição do governo de internacional seja passando a fronteira com o Uruguai ou Argentina… pois nos entendemos com o “portuñol”.

Inglês, neste caso, não é a língua dos americanos. É a língua dos negócios internacionais. Não só a licitação, mas todos os documentos, leis e plano diretor devem estar em inglês. Limitar a oferta em português, é limitar a fonte de recursos de investimentos. É um nacionalismo de visão curta. Também as dúvidas ao texto (rezando para que sejam respondidas) devem ser feitas em português. Quantas empresas no mundo têm staff que fala português? Isso fora a burocracia de que documentos em outras línguas devem ser traduzidos por tradutor juramentado e autenticados no consulado brasileiro local. É simplesmente absurdo… Se os negócios internacionais funcionassem assim, o mundo giraria à velocidade de tartaruga. Bastava fazer o inglês a língua oficial, juntamente com o português, para que tudo isso fosse evitado. Será que a China organizou os projetos dos jogos olímpicos em chinês?

Mas de cair o queixo mesmo é a redação. Para a esperançosa população, especialmente os arquitetos, pelo melhor projeto arquitetônico, urbanístico e paisagístico, o texto é assustador. Claramente na página 6, define-se quem ganhará a competição: “[...] declarando vencedora a Licitante que oferecer o maior valor anual do arrendamento ofertado”. Simplesmente falando, é um leilão. Sim, existem requisitos, estudo de mercado, tipos de negócio, valor mínimo do investimento, etc. A arquitetura? Sim, está lá também, sem nenhuma ênfase especial… Na verdade, o estudo técnico é o que menos importa, tem o menor peso em pontuação (ver página 79). Estes são apenas itens de qualificação a concorrer… Money é o classificador final.

Money não é ruim, porém pode tornar-se uma faca de dois gumes quando usado na ordem errada. Em arquitetura, a ordem dos fatores altera o produto. A Licitação do Cais deveria ser feita em duas etapas: primeiro a concorrência do projeto arquitetônico e depois, em competição separada, quem iria explorá-lo economicamente.

Desta maneira, um arquiteto não vinculado a nenhuma das partes tem melhores condições de equilibrar todos os interesses, mas principalmente enfatizar o interesse da comunidade. A atual proposta, por exemplo, já apresenta vários pontos técnicos questionáveis que não atendem a uma visão de desenvolvimento da cidade no futuro (como as garagens e conseqüências no trânsito, só para citar um).

As outras vantagens de se realizar uma competição arquitetônica é a economia e o grande número de opções de design que gera: os custos do estudo correm por conta dos concorrentes e não teríamos hoje só uma visão, mas várias dezenas delas. O atual estudo de proposta arquitetônica foi uma perda de tempo e dinheiro; uma decisão administrativa que em outras cidades do mundo jamais ocorreria.

Para a população, neste momento, a sua melhor defesa é a educação. Da maneira que o texto prescreve, um projeto arquitetônico de nota 7, pode, tranqüilamente, ganhar a concorrência. E ai… torçamos para que isso não ocorra, mas apenas a opinão pública atenta, culta, altruísta e unida poderá se posicionar firmemente pela melhor alternativa, o projeto nota 10.

Para saber o que é um projeto nota 10: ler, ler e ler sobre crítica e ensino em arquitetura. Ler sobre sobre arquitetura e influência econômica e cultural; ler sobre urbanismo versus economia e sociologia; ler sobre paisagismo; ler sobre projetos semelhantes de revitalização de rios e lagos urbanos; ler sobre engenharia de trafego e hidrologia, etc, etc. Enfim, mergulhar no assunto, para poder questionar e discutí-lo. Porto Alegre é culta. Esta é uma ótima oportunidade de se usar esta qualidade em seu próprio favor.

Que essas preocupações sejam dissipadas no resultado final. Que apenas alertem para que vença, realmente, o melhor.

Wednesday, July 28, 2010

Video Turístico de Porto Alegre (2010)

Um dos poucos vídeos em Inglês que de uma maneira extraordinária consegue captar a eclética personalidade de Porto Alegre.

Sim, é para Inglês ver. Sim, é para o mundo nos conhecer. Sim, a cidade tem problemas, mas existem momentos em que devemos falar apenas nos apectos positivos. E são tantos... É dessa maneira que atrairemos investimentos saudáveis, sustentáveis, ao mesmo tempo que conscientiza a população das condições favoráveis e do imenso potencial de Porto Alegre.

Ao final, Poa lembra uma combinação de New York com San Francisco, porém menor e mais humana. Deu saudades de casa.

http://www.youtube.com/watch?v=pXQ9z8sPcHI

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Monday, July 5, 2010

Design do Cais do Porto - Importancia Economica, Social e Ecologica

Design do Cais do Porto – Uma Oportunidade Única


As pessoas se queixam que Porto Alegre oferece limitadas opções de progresso professional, que os salários são baixos, que os filhos mudam para São Paulo ou para o exterior em busca de melhores oportunidades. Porto Alegre não existe no mapa global. As cidades mais importantes do planeta estão conscientes que hoje competem pela atenção e os limitados recursos mundiais. Políticos do mundo todo sabem do poder ecônomico e social que a arquitetura e paisagismo de prestígio têm.

Alguém consegue imaginar Sidney, na Australia, sem o Opera House? Porto Alegre precisa de icon, o Laçador não é suficiente. Porto Alegre precisa do “Efeito Bilbao” como o causado pelo museu do Guggenheim desenhado por Frank Gehry. Atualmente, a construção de torres de escritórios e shopping centers na beira de rios de centros urbanos não é recomendada por experts no assunto. Um complexo menor, mais barato, green e de acesso público será muito mais benéfico economicamente, socialmente e ecologicamente para a cidade.

Haverá muita resistência por parte dos atuais selecionados para o projeto. E muito provavelmente nem toda a empresa de engenharia e construção nacional estará capacitada a desenvolver um projeto sofisticado de um Star Architect. Mas o esforço vale a pena. Segundo a forbes.com, o Guggenhein Bilbao, em plena crise turística mundial de 2002, atraiu para cidade 147 milhões de dólares. Com esse valor dá para construir um novo Cais do Porto a cada dois anos.

Tenhamos a humildade de reconhecer que nossa arquitetura regional não foi capaz, até o presente momento, de gerar um arquiteto mundialmente reconhecido. O desenvolvimento da cidade ao longo prazo deve ser colocado acima de quaisquer outros interesses.

Estamos na reta final e não podemos deixar passar essa oportunidade. Na verdade, a população têm hoje um poder de barganha muito maior do que antes. Os olhos do mundo se voltam para o Brasil pelos próximos seis anos. A cidade tem que estar pronta. O momento é propício que se exija o melhor do mundo do design para a capital gaúcha.

Uma concorrência de arquitetura internacional pode ser feita em alguns meses, há organizações experientes nesse tipo de evento. A proposta final arquitetônica e dos projetos técnicos hoje é bastante acelerada com o uso de sistemas de design integrado como Catia, que reduzem tempos de produção do projeto assim como a construção e, consequentemente, custos. O estádio olímpico Beijing National Stadium (Bird’s Nest) dos arquitetos Herzog & de Meuron foi desenvolvido desta maneira.

Relembrando Mario Quintana, a copa passará, os jogos olímpicos passarão e Porto Alegre passarinho. A cidade voltará à obscuridade, sem nenhuma razão mundial para ser visitada. Literalmente, ela terá perdido o bonde, sem saber quando ele voltará.